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Guerra reforça urgência da transição energética para segurança global

Conferência na Colômbia reúne mais de 60 países para debater redução da dependência do petróleo e construção de documento global para COP30.

24/04/2026 às 20:06
Por: Redação

A cidade de Santa Marta, na Colômbia, sediou o início da 1ª Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis nesta sexta-feira, dia 24. O evento reúne representantes de mais de 60 países comprometidos em reduzir tanto a produção quanto o consumo e a dependência do petróleo.

 

Durante os debates, serão estabelecidas diretrizes para a elaboração do Mapa do Caminho para Longe dos Combustíveis Fósseis, documento sugerido pela presidência brasileira na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30).

 

A diretora-executiva da COP30, Ana Toni, concedeu entrevista exclusiva antes de viajar para Santa Marta, relatando detalhes sobre o papel do Brasil e o processo de construção do documento.

 

Segundo Toni, a instabilidade gerada pela guerra no Irã e as oscilações do preço do petróleo evidenciaram não apenas a vulnerabilidade econômica e energética causada pela dependência dos combustíveis fósseis, mas também ressaltaram sua relevância do ponto de vista da segurança internacional.

 

"A gente não tinha ideia que isso ia acontecer, mas acho que o nosso Mapa do Caminho se transformou em uma plataforma para discutir e revisar a segurança energética, econômica e essa dependência global que temos de combustível fóssil".


 

A previsão é que o documento esteja concluído até novembro, trazendo orientações para que os países possam conduzir a transição energética e diminuir as emissões de gases que provocam o efeito estufa, responsáveis pelas mudanças climáticas.

 

Participação do Brasil e escuta ativa na conferência

A presença da presidência da COP30 na conferência colombiana é, de acordo com Ana Toni, pautada pelo interesse em ouvir as demandas de países, sociedade civil e grupos indígenas sobre os rumos da transição energética. Ela destaca que o Mapa do Caminho já nasceu como resposta às necessidades identificadas durante a COP30 e será enriquecido com as discussões promovidas em Santa Marta.

 

Toni ressaltou a importância da parceria entre Colômbia e Países Baixos na organização do evento e explicou que a participação brasileira tem o objetivo de alinhar e ajustar as propostas do Mapa do Caminho, incorporando pontos relevantes do debate internacional.

 

Construção coletiva do Mapa do Caminho

A diretora-executiva explicou que, após a decisão tomada na COP28 em Dubai de abandonar os combustíveis fósseis, o desafio atual é detalhar como implementar as ações necessárias. Ela pontuou que ouvir sugestões e preocupações da sociedade civil, povos indígenas e governos é essencial para definir os próximos passos, já que cada país apresentará realidades e prioridades distintas.

 

De acordo com Toni, a implementação não depende de consenso, ao contrário da decisão. Ela afirmou que enquanto para alguns países a prioridade será a eletrificação, para outros, o foco será o desenvolvimento de combustíveis sustentáveis. O objetivo é mostrar que há várias formas de avançar na transição, respeitando especificidades locais e setoriais.

 

Representatividade internacional e contribuições recebidas

A participação de mais de 60 países na conferência é considerada significativa por Ana Toni, já que três em cada quatro pessoas no mundo vivem em nações que importam combustíveis fósseis. Ela destacou que reduzir a dependência destes recursos exige o envolvimento tanto dos produtores quanto dos consumidores.

 

Para ilustrar, citou a decisão da Etiópia de não importar mais veículos movidos a combustão, enfatizando o impacto de medidas como essa. O Mapa do Caminho recebeu mais de 250 contribuições formais de países e entidades, o que demonstra amplo interesse no debate sobre os próximos passos da transição energética. Toni destacou que o encontro em Santa Marta é um dos fóruns essenciais desse processo de amadurecimento global.

 

Desafios na elaboração do documento global

O prazo para envio de contribuições ao Mapa do Caminho se encerrou em 10 de abril. Ana Toni apontou como desafio prioritário analisar a grande quantidade de informações recebidas e priorizar recomendações, considerando as diferentes circunstâncias de cada país.

 

"Infelizmente, a guerra contra o Irã, promovida pelos Estados Unidos e Israel, mostra que caminhar para longe dos combustíveis fósseis, dessa dependência que temos, é absolutamente necessário. Não só por questões climáticas, mas por questões econômicas, energéticas e de segurança."


 

Toni afirmou que a elaboração do documento tornou-se uma plataforma para avaliar e discutir as vulnerabilidades energéticas, econômicas e de segurança advindas da dependência global do petróleo. Ela enfatizou a necessidade de planejamento gradual, já que a superação dessa dependência não será imediata, sob pena de se repetir impactos como os observados atualmente no cenário internacional.

 

Estrutura do Mapa do Caminho

Em relação à estrutura do documento, Ana Toni explicou que a proposta prevê capítulos temáticos. O primeiro deles abordará os riscos de não realizar a transição, incluindo aspectos climáticos, naturais, políticos e de segurança.

 

O segundo capítulo trará perspectivas tanto dos produtores de combustíveis fósseis – países e empresas – quanto dos consumidores, detalhando como setores como energia elétrica, transporte e indústria podem se beneficiar de oportunidades e acelerar o processo de transição.

 

A terceira parte do documento se dedicará à dependência econômica, mostrando como diferentes países e entes subnacionais, como prefeituras, enfrentam desafios que vão além da esfera energética, incluindo questões econômicas relacionadas à dependência do petróleo.

 

No último capítulo estarão as recomendações desenvolvidas para o contexto global, que também servirão de referência para a COP31.

 

Transição planejada e justiça climática

Sobre a possibilidade de uma transição energética planejada e justa, Ana Toni avaliou que o processo já está em curso, mas ainda existe uma forte presença de investimentos em fontes renováveis e, ao mesmo tempo, em combustíveis fósseis.

 

O objetivo agora, segundo ela, é reduzir gradativamente o uso de combustíveis fósseis. Toni acredita que a transição só será bem-sucedida se acontecer de forma justa e reforçou a importância de manter o tema em debate político, buscando amadurecimento contínuo das soluções e avanços em eventos como a COP31, COP32 e no segundo Balanço Global.

 

"Eu não tenho nenhuma dúvida que essa mudança tem que ser justa, porque, se não, ela não vai acontecer. Eu acho que a gente tem uma oportunidade única de continuar debatendo esse tema. Vai ter aí COP31, COP32, vai ter o segundo Balanço Global, para que a gente amadureça o que está funcionando. Para a gente chegar nesse novo Balanço Global muito mais capazes de falar o que deve e pode ser acelerado daqui para frente."


 

Mesmo otimista, a diretora-executiva enfatizou que a continuidade do debate político é fundamental para que decisões corretas sejam tomadas em relação à transição energética mundial.

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