A deflagração da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal em novembro de 2025 expôs um esquema de fraudes financeiras que envolveu o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, gerando uma crise de confiança sem precedentes para a instituição pública do Distrito Federal. Aproximadamente cinco mil empregados do BRB convivem atualmente com os reflexos dessa situação, que vai além do impacto institucional e atinge o cotidiano dos trabalhadores.
Daniel Oliveira, diretor do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal e servidor do BRB desde 2008, afirma que tanto a sociedade quanto os funcionários arcam com as consequências das decisões políticas relacionadas ao resgate do Banco Master. Conforme relata, o ambiente de trabalho tornou-se mais tenso, especialmente para os empregados que foram convocados pela Polícia Federal e por auditores para prestar esclarecimentos sobre as negociações com a instituição ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso desde o início de março.
Analistas de setores envolvidos nas tratativas com o Master relatam pressão e insegurança, pois detêm informações que podem ser relevantes para as investigações. Os acordos em questão envolveram a aquisição de bilhões de reais em créditos do banco de Vorcaro e culminaram com o anúncio, posteriormente vetado pelo Banco Central, da intenção do BRB de adquirir parte do Master por dois bilhões de reais. Dois meses antes de a PF deflagrar a Operação Compliance Zero, o Banco Central rejeitou a operação e determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master.
Desde a instauração das investigações e o afastamento judicial do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, por suspeita de envolvimento em irregularidades e fraudes financeiras, clientes passaram a buscar informações nas agências sobre a solidez do banco e possíveis riscos a seus investimentos. Funcionários têm a tarefa de tranquilizar os clientes e convencê-los a manterem suas aplicações, mesmo sem dispor de todas as respostas.
O próprio Oliveira destaca que os trabalhadores também estão inquietos diante das incertezas, sem condições de oferecer explicações completas sobre questões que extrapolam suas atribuições. Segundo ele:
“Nossos empregos também estão em jogo. Somos cobrados a dar satisfações sobre fatos que escapam da nossa alçada. Quem atende ao público tem que estar o tempo todo atento ao noticiário para poder transmitir informações que, a nosso ver, são de responsabilidade do banco e do GDF”.
O clima entre os empregados oscila entre indignação e apatia, principalmente porque, conforme o sindicalista, já havia quem indicasse possíveis irregularidades nas negociações com o Master antes de a Polícia Federal tornar o caso público. O sindicato, ao tomar conhecimento da primeira operação de compra e venda de carteira de créditos do Master em novembro de 2024, comunicou o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários por considerar a operação prejudicial ao BRB.
Em torno de três mil aposentados do BRB, cujos planos de saúde e previdência dependem da estabilidade financeira da instituição, também demonstram preocupação. A Previdência BRB garante patrimônio superior a 4,39 bilhões de reais, segregado dos recursos de patrocinadores e empresas do conglomerado. A entidade afirma que a gestão e atuação são autônomas e independentes.
O BRB, com mais de seis décadas de atuação, destaca a administração de mais de 80 bilhões de reais em ativos de mais de dez milhões de clientes e sugere que, diante de eventual necessidade, aportes de curto prazo poderiam absorver prejuízos. No entanto, Daniel Oliveira pondera que a prolongada indefinição e falta de soluções claras podem causar mais temor no mercado e entre investidores do que os próprios prejuízos, ameaçando o patrimônio do banco. Entre outros efeitos, a agência de classificação Moody's rebaixou a nota do BRB devido à ausência de informações transparentes sobre o impacto real da compra de ativos do Master e a inexistência de um plano de recuperação definido. A Moody's avalia que será necessária uma injeção significativa de capital para o banco evitar dificuldades no cumprimento de suas obrigações.
De forma institucional, o BRB tem optado pela divulgação de Avisos aos Acionistas, Comunicados ao Mercado e Fatos Relevantes, orientando dirigentes e funcionários a não conceder entrevistas sobre o tema. No ambiente digital, foi lançada uma campanha para afirmar que o banco permanece sólido e em pleno funcionamento.
Na semana anterior, o novo presidente do BRB, Nelson de Souza, que substituiu Paulo Henrique Costa, não compareceu à Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Distrito Federal, alegando a necessidade de aguardar a conclusão das auditorias e a análise do balanço consolidado de 2025. A ausência motivou a convocação obrigatória de Souza pelos deputados para futura audiência.
Thiago Manzoni, presidente da comissão, declarou:
“O não comparecimento, especialmente diante da gravidade dos fatos, não é apenas um desrespeito a esta comissão. É, sobretudo, um desrespeito com o cidadão do DF, que tem o direito de saber o que está acontecendo com o BRB”.
Por sua vez, Fábio Felix, deputado distrital, acrescentou o questionamento sobre a real situação do BRB, ressaltando que esta é uma dúvida frequente da população.
Daniel Oliveira avalia que a constante exposição negativa do banco na imprensa fortalece discursos a favor da privatização, podendo desencadear a venda de ativos a grandes instituições financeiras por valores inferiores aos de mercado. Segundo ele, essa situação poderia levar os grandes bancos a assumir gratuitamente contas de governos e pessoas jurídicas do BRB.
Diante da crise, projetos estratégicos de expansão para outros estados foram interrompidos, afetando funcionários que planejavam transferências para novas localidades e cerca de quatrocentos aprovados no concurso de 2022, cuja convocação depende da resolução do impasse. O plano de expansão, característica da gestão de Paulo Henrique Costa, previa a disputa pela gestão de folhas de pagamento em várias cidades, inclusive capitais como João Pessoa, e a abertura de agências em estados como Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, além de estabelecer correspondentes bancários em outras unidades.
Fortalecendo o marketing, o BRB patrocinou eventos esportivos e firmou parceria estratégica com o Flamengo, viabilizando o banco digital Nação BRB Fla, que alcançou quase quatro milhões de clientes. Entretanto, o projeto perdeu força antes mesmo da divulgação da intenção de compra do Master, em março de 2025, e foi oficialmente suspenso com a operação policial em novembro daquele ano.
No dia 13 de abril, a governadora Celina Leão, que assumiu após a saída de Ibaneis Rocha para concorrer ao Senado, admitiu a possibilidade de fechamento de agências fora do Distrito Federal, decisão a ser tomada pela diretoria do banco. Reforçou, porém, que a prioridade será retomar o foco regional, privilegiando o crédito para pessoas e empresas do DF.
Em declarações anteriores, Celina Leão assegurou que o BRB não enfrentará insolvência e que a instituição tem condições de cumprir os acordos firmados com o Banco Central. Segundo a governadora, uma solução para a crise será apresentada e implementada em, no máximo, trinta dias, prazo criticado por Daniel Oliveira, que afirma ser indispensável um aporte financeiro imediato e eficiente, além de considerar que a decisão sobre a capitalização do banco é de natureza política.
O sindicalista defende que cabe ao Governo do Distrito Federal oferecer as condições necessárias para restaurar a credibilidade do banco, preservando o controle público distrital. O BRB, além de fomentar a economia local, atua como executor de políticas públicas, incluindo os programas de cartões Gás, Creche e Material Escolar, bem como o Sistema de Bilhetagem Automática (BRB Mobilidade) nos ônibus e metrô do DF.
O atraso na divulgação do balanço de 2025 e de outros documentos contábeis do BRB amplia a desconfiança, sujeitando o banco ao pagamento de multas superiores a cinquenta mil reais por dia, impostas pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários. O economista e professor da Universidade de Brasília, César Bergo, considera que a transparência é essencial para o setor financeiro e que a insegurança entre correntistas e investidores pode ter efeitos sistêmicos.
Bergo argumenta que a ausência do balanço anual e a demora para as assembleias gerais de análise das contas e eleição dos conselhos intensificam a crise de reputação do banco, que já enfrenta questionamentos públicos quanto à confiabilidade dos números e dos dirigentes em exercício.
“O BRB foi alvo de um golpe que lançou o banco em uma crise não só financeira, mas, principalmente, de reputação. E nem os nomes dos dirigentes que estão falando pelo banco foram aprovados pela assembleia? A crise é de confiança e [fontes do GDF] divulgam à imprensa números que não batem, contas que não fecham, de uma maneira que nenhum acionista, economista ou contador entende?”
César Bergo aponta quatro possíveis caminhos para enfrentar a crise do BRB: aporte de recursos pelos sócios, especialmente o GDF, mediante capitalização da instituição; tomada de empréstimos junto ao Fundo Garantidor de Créditos ou outros bancos, o que resultaria em fortalecimento de capital, mas à custa de juros elevados; intervenção federal com federalização do banco, podendo ser absorvido pelo Banco do Brasil ou Caixa Econômica Federal, algo semelhante ao ocorrido com o Banco do Estado de Santa Catarina em 2008; e, finalmente, a privatização.
“A federalização eu não creio que o Palácio do Planalto queira fazer, pois implicaria levar para o âmbito federal um problema que é do GDF. De qualquer forma, seja lá qual for a solução, duas coisas são certas: uma é que salvar o BRB é melhor que deixá-lo quebrar. Outra, é que qualquer que seja a decisão, ela deve ser anunciada rapidamente”.
A instituição não respondeu aos questionamentos feitos por meio de sua assessoria até o fechamento desta reportagem. Também não foi obtido contato com a defesa de Paulo Henrique Costa. A governadora Celina Leão, em nota, afirmou que a prisão preventiva do ex-presidente do BRB está sob análise do Poder Judiciário, responsável pela apuração dos fatos, e que todas as providências cabíveis têm sido adotadas em colaboração com as autoridades competentes.