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Combate ao Machismo: Especialistas Priorizam Família e Escola

Pesquisas revelam alta incidência de agressões e discursos misóginos, reforçando a urgência de engajar homens na desconstrução de padrões de violência.

25/04/2026 às 15:26
Por: Redação

A violência contra a mulher permanece como um desafio urgente no Brasil, com estatísticas alarmantes que sublinham a necessidade de ações efetivas. Em 2025, uma média de doze mulheres foram agredidas diariamente em solo brasileiro, totalizando 4.558 vítimas anuais. Esses dados, provenientes de uma investigação da Rede de Observatórios da Segurança, abrangem nove estados monitorados: Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.

 

Diante desse cenário, especialistas entrevistados pela Rádio Nacional enfatizam que o machismo estrutural é a causa subjacente da persistência desses casos. Eles ressaltam a importância fundamental de envolver os homens na busca por soluções que promovam o engajamento masculino no combate à violência e que promovam uma mudança substancial nessa realidade.

 

Uma pesquisa conjunta realizada pela ONU Mulheres e pelo Instituto Papo de Homem corrobora essa percepção, indicando que 81% dos homens e 95% das mulheres no país consideram o Brasil uma sociedade machista.

 

Transformando Mentalidades e Dinâmicas Familiares

 

O psicólogo Flávio Urra, que atua na reeducação e ressocialização de indivíduos que cometeram atos de violência, observa uma discrepância significativa. Segundo ele, enquanto as mulheres têm impulsionado e legitimado uma vasta gama de pautas que transformaram o mundo, os homens permanecem com uma mentalidade antiga, “com a mesma cabeça de 30 anos atrás, de 50 anos atrás, querendo aquele modelo de família, aquele modelo de mulher que não existe mais.”

 

Contudo, existem exemplos de conscientização, como o do engenheiro Carlos Augusto Carvalho, de 55 anos. Após dialogar com outros homens, ele compreendeu que a luta contra o machismo é um compromisso diário. Carvalho descreve o machismo como “essa coisa que está enraizada e que a gente tem que diariamente combater. Realmente levantar uma bandeira forte para eliminar isso do nosso caminho.”

 

O psicólogo e terapeuta familiar Alexandre Coimbra Amaral analisa que as interações dentro da família são cruciais para moldar a percepção de mundo de crianças e adolescentes, possuindo um forte componente cultural. Ele traça um paralelo entre a família e um país, cada um com seus próprios códigos, onde o indivíduo aprende desde cedo o que é certo, o que é errado, costumes alimentares e de vestuário, o que pode ou não ser dito, e como idosos e crianças devem ser tratados.

 

Amaral aponta que, embora existam múltiplas maneiras de exercer a masculinidade, quando a cultura familiar adota um modelo masculino tradicional e inflexível, sem apresentar outras perspectivas, ela pode inadvertidamente fomentar comportamentos violentos em crianças e adolescentes.

 

“Essa biografia mais enrijecida ensina que homens têm que deter o poder, precisam dominar, precisam submeter e, quando as pessoas não são regidas por esse binômio, dominação e obediência, a violência precisa aparecer como uma espécie de cala boca.”

 

Para o psicólogo, é essencial que o diálogo familiar incentive os homens a questionar a forma como foram criados, em vez de apenas justificá-la. Ele sugere uma reflexão profunda:

 

”Que ele possa se perguntar quais foram os prejuízos que eu tive na condição de homem por eu ter aprendido a ser homem dessa forma, com meu pai, com meu avô, com meu tio, com meu bisavô, vendo todos esses homens. Quais foram as coisas que eles perderam na vida?”

 

O educador parental Peu Fonseca defende a construção de uma nova identidade, que seja coletiva e social, elaborada em conjunto por homens e mulheres, e que se distancie de qualquer caminho que conduza à violência.

 

“É preciso que essa identidade se afaste do que nos trouxe aqui até hoje, porque o que nos trouxe aqui até hoje está matando mulheres. A gente não tem como admitir isso mais. Chega! É preciso ensinar os nossos meninos a gostar, e não odiar meninas. E não se sentirem ameaçados. O fato de as meninas ocuparem espaços que antes eram nossos não diz sobre as meninas quererem nos dominar. Diz sobre a gente não querer aprender coisas novas.”

 

Peu Fonseca, pai de João, Irene, Teresa e Joaquim, considera que o maior desafio para pais e responsáveis é compreender que o papel de cuidar não envolve controlar o que os filhos se tornarão, mas sim acolhê-los, dialogar, orientar. Ele descreve esse papel como “indicar caminho, corrigir rotas, ser margem e, em outros momentos, ser fluxo, ser água corrente, para que elas se lancem mais ao mundo.”

 

Na visão de Felipe Requião, consultor de empresas que foca no engajamento masculino para a equidade de gênero e prevenção da violência, a família deve desempenhar um papel principal na formação da masculinidade, seja ela sadia, madura, benéfica ou tóxica, ao lado da escola e das redes sociais.

 

Requião argumenta que as famílias contribuem positivamente quando evitam a perpetuação de estereótipos prejudiciais, como a ideia de que “homem não chora”, “não faz trabalho doméstico” ou “não cozinha”.

 

Ismael dos Anjos, jornalista e pesquisador em masculinidades, observa que, ao contrário das gerações anteriores, as meninas de hoje são incentivadas a ocupar qualquer espaço que desejem. Ele propõe que os meninos também busquem uma nova realidade, fundamentada no cuidado consigo mesmos e com os outros.

 

Para construir um futuro mais equitativo, Ismael dos Anjos sugere a substituição de brincadeiras tradicionais, como polícia e ladrão ou pega-pega, por atividades lúdicas que estimulem os meninos a desenvolver o cuidado com eles próprios, com o próximo e com o ambiente. Ele questiona: “Se existe professor e aluna, mamãe e filhinha, por que a gente não ensina professor e aluno, papai e filhinho para os nossos meninos?”

 

O pesquisador acredita que essa “mudança de chavinha” — reconhecer que o cuidado não é uma atribuição exclusiva das meninas, mas deve ser incentivado nos meninos desde a infância — promoverá uma transformação cultural. Essa mudança é “desejável para uma sociedade de homens que, caso ascendam a posições de influência, de liderança, saibam a responsabilidade que carregam consigo nesses papéis.”

 

A Instituição Escolar no Letramento de Gênero

 

Um estudo da organização não governamental (ONG) Serenas, que se dedica à prevenção de violências contra meninas e mulheres, revelou que sete em cada dez educadores já presenciaram situações indesejadas de sexualização e silenciamento de meninas em ambiente escolar.

 

Valeska Zanello, psicóloga e pesquisadora renomada em gênero e saúde mental, salienta o papel crucial das instituições de ensino na promoção do letramento de gênero. Ela explica que há uma tendência de reprodução dos valores familiares, criando um ciclo de violência. A escola, com seu ensino público e gratuito para todas as crianças e jovens, representa uma oportunidade vital para interromper e modificar essa realidade.

 

“Em muitas famílias a gente vai ter uma genealogia, uma repetição dessa violência por muitas gerações. Então, se minha bisavó apanhava, minha avó apanhava, minha mãe apanhava, o que eu como menina aprendo? É um direito desse homem quando se sente aborrecido, não obedecido, recorrer à violência. É importante então que isso seja problematizado.”

 

Thaís Luz, coordenadora-geral de Acompanhamento e Combate à Violência nas Escolas do Ministério da Educação (MEC), reforça a ideia de que a escola deve ser um espaço de combate à violência, e não de risco. Ela destaca que essa batalha exige uma colaboração estreita entre a escola, as famílias, a comunidade, e as redes de proteção social, de assistência social, de saúde e o sistema de Justiça.

 

Luz afirma que a educação básica é um pilar fundamental para a transformação da sociedade e para a desconstrução de padrões culturais machistas.

 

“Quando nós trabalhamos intencionalmente temas como respeito, equidade, empatia, resolução pacífica de conflitos, nós estamos contribuindo diretamente para a prevenção da violência, incluindo a violência contra meninas e mulheres.”

 

A coordenadora-geral reconhece que este é um desafio histórico e complexo, pois são temas frequentemente ausentes na formação inicial dos professores, configurando-se como um obstáculo estrutural. No entanto, ela enfatiza que essa dificuldade não deve ser vista como um fator limitante. Para mudar essa situação, o MEC implementou o programa Escola que Protege, que, em conjunto com outras iniciativas, oferece capacitação às redes de ensino no enfrentamento à violência.

 

Entre os programas de capacitação, Thaís Luz cita o curso Escolas ON Violências OFF, em parceria com a ONG Serenas, e cursos sobre cidadania, democracia e direitos humanos, desenvolvidos desde a escola em colaboração com o Instituto Auschwitz.

 

“Tudo isso com o objetivo de garantir que os profissionais tenham o repertório necessário, se sintam seguros e sensíveis para lidar com essas situações do cotidiano da escola.”

 

Thaís Luz argumenta que o comprometimento de gestores e entes federativos é vital para a implementação bem-sucedida dessas mudanças. Ela reitera que a escola é o elemento mais importante nesse processo de transformação, e os educadores são os protagonistas, necessitando, portanto, de apoio institucional.

 

“Então, é muito importante também reconhecer a responsabilidade dos entes federativos em garantir as condições para que essa agenda se concretize, oferecendo suporte, formação e a estrutura adequada para suas redes, para suas escolas.”

 

Janaína Penalva, professora da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em gênero e direito, também sustenta que a transformação social tem seu ponto de partida na escola. Ela defende a formação de professores e professoras aptos a identificar estereótipos de gênero presentes tanto na sociedade quanto nos materiais didáticos.

 

Penalva considera que um ensino de caráter emancipatório possui um poder significativo na prevenção de diversas formas de violência, incluindo as agressões contra mulheres.

 

Recentemente, o governo federal divulgou um conjunto de iniciativas que abrangem desde o ensino básico até o superior, com o propósito de incluir no currículo escolar conteúdos focados no combate à violência contra meninas e mulheres.

 

Alexandre Coimbra Amaral concorda que a temática de gênero deve ser uma disciplina obrigatória no currículo escolar. Ele critica veementemente as tentativas de movimentos conservadores de barrar esse progresso, sob a alegação de que se trata de “ideologia de gênero”.

 

“Essa expressão ideologia de gênero nem existe no campo científico. E, portanto, não existe uma construção de uma ideologia, o que existe é a possibilidade de se conversar abertamente. Toda a história da psicologia mostra o seguinte: onde a palavra não pode existir, há adoecimento psíquico.”

 

O psicólogo defende que, em vez de “patologizar” ou punir (com suspensão ou castigo) um menino que age de forma inadequada, o foco deve ser no diálogo, envolvendo também as meninas. Ele sugere “aproveitar aquilo ali como ação educativa. Abrir uma roda de conversa e falar assim: ‘o que a gente pode aprender disso aqui? Quem já se sentiu no lugar dele e no lugar dela?’”. Amaral lembra que a própria criança que demonstra agressividade pode, em situações anteriores, ter sido vítima.

 

O Impacto das Redes Sociais no Machismo

 

Pesquisas recentes apontam para um aumento expressivo de discursos misóginos e machistas nas plataformas digitais. Termos como “machosfera”, que se refere a grupos e fóruns online que promovem a masculinidade tóxica, o ódio às mulheres e a oposição aos direitos femininos, e “redpills”, usados para descrever homens que supostamente “despertaram” para uma realidade em que as mulheres são manipuladoras e exploradoras, tornaram-se comuns.

 

Um levantamento atualizado este ano pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revelou que 90% dos canais do YouTube identificados em 2024 por veicularem conteúdo misógino permanecem ativos na plataforma, com mais de 130 perfis continuando a publicar vídeos.

 

Alexandre Coimbra Amaral afirma que “as redes sociais estão claramente, neste momento, assumindo que promovem mais o tipo de masculinidade tóxica, perversa e violenta”. Ele enfatiza que não há neutralidade, pois essas plataformas são controladas pelas grandes empresas de tecnologia.

 

Amaral analisa que a preferência das redes recai sobre conteúdos que replicam mensagens masculinas mais violentas, pois estes geram maior alcance e engajamento. Ele alerta para o perigo dessas plataformas, comparando-as a uma “TV” onde os programas mais assistidos não são escolhidos pelo público, mas sim reiteradamente exibidos por elas.

 

O psicólogo defende a instauração de um diálogo, tanto online quanto offline, que questione “o malefício desse conteúdo para os meninos e os adolescentes, para a formação dos homens e para a construção de uma sociedade que não seja regida pela barbárie”.

 

Felipe Requião concorda que as redes sociais atuam como um amplificador para conteúdos misóginos, criando comunidades que validam tais ideias. Ele observa que a internet, muitas vezes, desempenha um papel mais significativo na educação dos meninos do que a formação proporcionada pelos adultos.

 

“Às vezes, eu dou o celular na mão de um jovem, de um menino, achando que eu estou ocupando o espaço dele, ocupando o tempo dele, fazendo com que ele tenha acesso à tecnologia. Mas, na verdade, eu estou dando uma forma de educação por algo, por alguém com quem eu não concordo, que eu não conheço e que eu não tenho controle sobre o que está sendo falado. O desafio é ocupar esse espaço com alternativas reais, verdadeiras, de pertencimento masculino saudável.”

 

A psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello aponta que a internet apresenta tanto aspectos negativos quanto positivos. No lado negativo, as redes sociais intensificam a violência digital, dando origem a novas formas de crimes. Ela exemplifica: “A gente vai ter o uso da IA [inteligência artificial], por exemplo, para divulgar fotos montadas de mulheres nuas, então, um novo tipo de nude, mas que nunca existiu, mas o fato de nunca ter existido não impede que afete a honra, as relações sociais das meninas e mulheres.”

 

Contudo, Zanello ressalta que as novas tecnologias podem se tornar aliadas poderosas ao amplificar o letramento de gênero, promovendo a compreensão, a desconstrução e a análise crítica das normas sociais e estereótipos impostos a homens e mulheres.

 

Quando utilizadas de forma construtiva, as redes sociais podem combater a violência digital por meio de conteúdo educativo, além de criar redes de apoio e facilitar a divulgação de denúncias. Campanhas de mobilização, que frequentemente empregam hashtags, são exemplos dessa estratégia. O movimento #ElesPorElas (HeForShe), iniciativa da ONU Mulheres, visa engajar homens e meninos na promoção da igualdade de gênero e no empoderamento feminino. Outros movimentos importantes, como o #Metoo, que luta contra o assédio sexual, e o #MexeuComUmaMexeuComTodas, demonstram a relevância de dar visibilidade aos movimentos femininos.

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