Durante o 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança no continente africano, realizado na capital do Senegal, líderes de diversos países africanos destacaram que a soberania nacional e a integração regional são condições indispensáveis para a promoção da paz, da estabilidade e da segurança em toda a África. A necessidade de investir nos jovens e aprimorar o controle das fronteiras também foi ressaltada como parte fundamental da estratégia para superar ameaças como o terrorismo.
O evento, que ocorre desde 2014 por iniciativa do governo senegalês, reúne chefes de Estado, membros da alta cúpula de governos, representantes de organismos internacionais e especialistas em segurança. Em sua edição de 2026, o fórum conta com a participação de 38 países, dos quais 18 pertencem ao continente africano. Outras nações, como o Brasil, estão presentes por meio de delegações diplomáticas.
Na abertura do evento, o presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, citou desafios globais recentes, como conflitos comerciais entre potências, políticas econômicas protecionistas e impactos das mudanças climáticas, enfatizando que a África não está imune a essas crises e enfrenta também conflitos armados e o terrorismo.
“O nosso continente, longe de estar protegido, sofre os efeitos de todas essas crises e ainda precisa enfrentar múltiplas ameaças, como conflitos armados e o terrorismo”.
Dirigindo-se a uma plateia que incluía representantes de países europeus com histórico colonial na África, entre eles Alemanha, Espanha, Portugal e França — que colonizou Senegal até 1960 —, o chefe de Estado senegalês reforçou o papel central da soberania africana, especialmente na definição das agendas de segurança e na exploração dos recursos naturais, como urânio, petróleo e gás recentemente descobertos no país.
“Não podemos mais aceitar que nossa agenda de segurança seja definida fora da África, nem que nosso espaço estratégico seja ocupado sem nosso consentimento”.
Bassirou Diomaye Faye afirmou que os recursos naturais africanos não devem servir apenas para beneficiar indústrias estrangeiras, defendendo a extração, transformação e comercialização dentro do continente, a preços justos, como elemento central para a transformação estrutural dos países africanos.
O presidente do Senegal dedicou atenção especial ao avanço do terrorismo na região do Sahel, faixa que atravessa o continente e separa o deserto do Saara das savanas africanas. Segundo ele, a atuação de grupos extremistas ligados ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda tem se expandido desde meados da década de 2010 em direção aos países do Golfo da Guiné, na costa atlântica.
Dados do Índice de Terrorismo Global de 2026, elaborado pelo Instituto para Economia e Paz, apontam o Sahel como epicentro mundial do terrorismo. Conforme o estudo, mais da metade das mortes provocadas por atentados terroristas em 2025 ocorreram nessa região, que abrange dez países: Senegal, Gâmbia, Mauritânia, Guiné, Mali, Burkina Faso, Níger, Chade, Camarões e Nigéria. Entre eles, Mali, Burkina Faso e Níger, localizadas no Sahel central, concentram cerca de 4,5 mil ataques nas últimas duas décadas, resultando em aproximadamente 17 mil vítimas fatais.
Esses três países têm enfrentado instabilidade política, cada um tendo passado por ao menos um golpe militar nos últimos dez anos, além de lidar com insurgências armadas em áreas de fronteira. O estudo destaca que uma das estratégias dos grupos jihadistas é explorar a falta de coordenação no controle das fronteiras entre os países do Sahel.
“Embora a soberania seja importante em crises internas, aqui é necessária uma resposta multidimensional. Devemos trabalhar igualmente para ter um controle efetivo sobre as fronteiras”.
Bassirou Diomaye Faye reforçou que ameaças à segurança em Mali impactam diretamente o Senegal, e vice-versa, ilustrando que uma resposta estritamente nacional não seria eficaz contra o terrorismo. O presidente defende ações conjuntas entre os países da região, com troca de informações, operações coordenadas e fortalecimento dos mecanismos de defesa e segurança.
O presidente de Serra Leoa, Julius Maada Bio, relacionou os problemas de segurança na África à ausência de representação adequada dos Estados junto à população. Segundo ele, muitos jovens acabam recrutados por grupos violentos devido à falta de alternativas oferecidas por instituições nacionais. Ele defendeu que os investimentos em políticas voltadas para a juventude devem ser considerados parte da estratégia de segurança, e não apenas uma questão social.
“Extremismo e crime organizado encontram espaço nas falhas de governança e em um crescente e perigoso distanciamento entre cidadãos e o Estado. Grupos extremistas recrutam onde há desespero”.
Tendo participado da guerra civil de Serra Leoa entre 1991 e 2002, Maada Bio compartilhou a experiência de perdas humanas e de tempo enfrentadas pelo país, destacando que a paz não deve ser entendida apenas como a ausência de conflitos armados, mas sim como a garantia de dignidade e perspectivas para o futuro da população.
O presidente de Serra Leoa reforçou a defesa da estabilidade, integração e soberania como pilares para soluções duradouras de segurança. Ele salientou que a integração depende da soberania, enquanto esta última só se sustenta com estabilidade, formando um sistema interdependente entre esses elementos.
Ao abordar a necessidade de autodeterminação dos africanos, Maada Bio defendeu que as soluções para os desafios atuais devem ser construídas a partir das realidades locais, evitando a simples adoção de modelos estrangeiros adaptados superficialmente.
“Devem ser soluções africanas, baseadas na realidade africana, não apenas modelos importados adaptados superficialmente”.
O líder encerrou afirmando que parcerias internacionais são bem-vindas, desde que respeitem plenamente a autonomia dos países africanos, e que a unidade entre as nações é fundamental para sua sobrevivência.
O presidente da Mauritânia, Mohamed Cheikh El Ghazouani, listou entre os fatores que desafiam a coesão das sociedades africanas as tensões identitárias, deficiências de governança, rupturas institucionais, fragilidade econômica, consequências das mudanças climáticas e o avanço de grupos armados não estatais. Ele reforçou que independência nacional não deve ser confundida com isolamento, já que nenhum Estado consegue enfrentar sozinho desafios como a globalização, fragmentação das cadeias de valor e transformações geopolíticas.
Para El Ghazouani, a integração regional é uma necessidade vital para a África, pois permite reduzir dependências externas, fortalecer as complementaridades entre países e ampliar a presença do continente no cenário internacional, além de proteger os interesses africanos de forma mais eficaz.
O presidente mauritano defendeu a ampliação da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), destacando a importância do bloco para o fomento do comércio entre os países, a facilitação da circulação de bens, serviços e pessoas, e o estímulo à transformação econômica na região. Atualmente, a Cedeao é composta por 12 países e está sob a liderança de Serra Leoa, que busca revitalizar e expandir a área de livre comércio.
Julius Maada Bio ressaltou a necessidade de convencer os mais de 400 milhões de cidadãos da Cedeao sobre a importância de manter a união diante dos desafios que levaram Mali, Níger e Burkina Faso a se retirarem da comunidade, alegando que o bloco estaria subordinado a interesses estrangeiros.
Nesta edição do Fórum de Dacar, os demais países africanos participam com delegações ministeriais. Entre os principais temas discutidos ao longo dos dois dias de evento estão a soberania tecnológica e digital, a gestão de recursos naturais, as transições políticas e o desenvolvimento da indústria de defesa no continente.
O repórter viajou a convite do Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Estrangeiro.